A dor e a delícia de ser “eu” – sobre processos externalizadores

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Foto: Screenshot do filme “Meninos não choram” (1999), de Kimberly Peirce

Chamo de processos externalizadores os processos anteriores aos processos tecnológicos de gênero (BOUCIER, 2014) protocolados como hormonização, cirurgias e outros. Quando falamos ou pensamos no Processo Transexualizador é como se não existíssemos antes. Parece que ser trans só é possível de ser compreendido a partir desses processos tecnológicos protocolados vividos pelo mesmo. E como ficam os trânsitos e as trajetórias anteriores? E para aqueles que não almejam tais tecnologias, não são quem são?

Nesse sentido, percebo um processo anterior ao Processo transexualizador tecnológico que chamo de “externalizador” pelas diversas práticas e experiências durante toda a trajetória de vida, distanciados dos protocolos todos.

Também entendemos esse processo a partir das subjetividades para uma melhor compreensão dos diversos processos; entendemos as práticas e experiências discursivas dos sujeitos que vivenciam e/ou pretendem vivenciar, e também daqueles que não almejam tais tecnologias de gênero sistemáticas muito bem pontuadas por Teresa de Lauretis (1987): “a construção do gênero é o produto e o processo tanto da representação quanto da autorrepresentação. […] Daí o conceito de uma ‘tecnologia sexual’ como ‘um conjunto de técnicas para maximizar a vida’”.

O Processo Transexualizador também não é externalizador? Sim, ele também apresenta o fazer externalizador. No entanto, chamo atenção nessas externalizações aos processos anteriores, os processos que também realizam tecnologias sem estar sobre o domínio da biomedicina; processos esses com uma vastidão muito maior que o próprio Processo Transexualizador – que nasce das vertentes médicas pensando em como um corpo é construído a partir do domínio médico. Com isso, o Processo Transexualizador é sistematizado e validado em leis, portarias e diretrizes, logo, para a construção de um corpo se faz necessário esse saber médico.

Essa verdade foi introjetada de forma que muitas pessoas trans não questionam tal processo, já o assimilam e vivenciam. Diferentemente dos processos externalizadores, feitos a partir de um saber do próprio sujeito que vivencia um silenciamento; não é validado por outras epistemes; está sendo questionado como certo ou errado e muitas vezes até bloqueado por não passar pelo crivo da ética médica.

O Processo Transexualizador foi vendido a partir da ideia do “saudável”, do “certo”, do “ideal”, até por que existe todo um aparato que vai garantir isso: o poder das ciências médica e o poder judicial que vai dizer que para construir um corpo tem que passar por um endocrinologista, um psiquiatra, um psicólogo, cirurgiões etc e tais pessoas é que vão dizer qual a melhor forma para esse corpo que será criado. Chamo atenção dos leitores sobre essas sistemáticas. Já nos processos externalizadores, o próprio sujeito vai construindo os percursos e esses percursos muitas vezes são interpretados como marginalizados pela conjuntura sistema-normalizadora.

Os processos externalizadores tem normas? Tem. São práticas? São. E são tecnologias de gênero? Sim, também são tecnologias de gênero. E tudo isso são movimentos políticos em torno de todos esses processos. Nesse sentido, convido os leitores a compreenderem as normas dos diversos processos: externalizadores (normas utilizadas para construir um corpo) e transexualizadores (normas que regulamentam e protocolam a construção de um corpo); as práticas e experiências desses trânsitos e as tecnologias de gênero vivenciadas nos dois campos.

Como havia dito, este processo é uma ressignificação da expressão “Processo Transexualizador”, no sentido de um processo anterior, que já existia e que também pode ser entendido como um processo de autovisibilização.

O processo de externalização está muito conectado com as subjetividades; não que os processos de tecnologias de gênero não vivenciam as mesmas. Como havia dito logo acima é um processo anterior aos tecnológicos protocolados. É um processo de “dentro para fora” sem leituras de signos masculinos e muitas vezes não producente de modificações corporais. É “colocar para fora o que já é vivido e sentido por dentro”, sem necessariamente intervenções de modificações visuais/corporais.

Peter Berg (2002) nos chama a atenção das categorias da construção da cultura, da experiência subjetiva e apresenta o panorama de três processos dialéticos: exteriorização, objetivação e interiorização. Nesse sentido, me aprofundo numa categoria êmica que é o “processo de externalização” como algo que é completado com a produção visual, com a performance, com a eficácia visual do processo. A expressão passa a ser êmica na medida em que ela é compartilhada com as pessoas que vivenciam os ditos processos.

Como homem trans e fazedor também desse processo, tomo como proposição, como proposta, digamos como uma proposta teórica e ao mesmo tempo como êmica, já que essa expressão é socializada como uma categoria por uma parte de nós, homens trans/transmasculines, identificados nesse processo. Em reunião da ATRANSCE – Associação Transmasculina do Ceará -, em que presenciei muitos encontros e debates, logo no começo, quando ainda éramos entre 4 a 5 homens trans reunidos, falávamos “processo externalizador” e defendíamos a ideia por dois motivos:

1) O Processo Transexualizador era entendido como algo sistemático e mecânico, conceituado dentro e pelo sistema de diretrizes SUS, muito distante de nossas realidades, a realidade do Estado do Ceará que ainda vivia e vive a precariedade da não existência de um dispositivo na época e que não correspondia a nossos anseios e realidades; diferentemente do “processo externalizador”, algo mais ao nosso alcance, menos burocrático – digo menos burocrático em relação aos processos “ilegais” quem também tem burocracia, exemplo: para se comprar uma ampola no comércio ilegal tem que conhecer a pessoa que vende, tem que ter trocado contatos, tem que ter confiança etc – no entanto, é um processo sem patologização, ou seja, a pessoa que te vende não te pede uma receita protocolada, não quer saber se você é enquadrado em um CID – Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde-, se você é doente mental ou não; e que de uma certa forma produz uma maior autonomia pois aqui se pode escolher quantas ampolas queira comprar, pode escolher qual marca de hormônio se quer usar etc.

2) Falar “processo externalizador” é o mesmo que dizer: “estou transitando mesmo que você não esteja vendo/sentindo essa transição”; e “vendo essa transição” não é só nos signos, no que se vê, na performance (BUTLER, 2002), e sim ver uma transição para além de intervenções tecnológicas protocoladas. Assim como, quando se está dentro do campo da “ilegalidade” deixa de ser entendido como “transição” e passa a ser visto como uma prática ilegal, invisibilizada, marginalizada e não mais discutida. Chamo de externalização o processo que vem apenas apresentar-se em uma leitura social o que sempre “fui/fomos e sou/somos”.

Neste texto foram citadas as seguintes referências:

BERGER, L. Peter, LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

BOUCIER, Sam. BILDUNGS-POST-PORN: notas sobre a proveniência do pós-pornô, para um futuro do feminismo da desobediência sexual. 2014.

BUTLER, Judith. Cuerpos que importan: Sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”. Buenos Aires: Paidós, 2002.

LAURETIS. T. A tecnologia do gênero. Indiana University Press, 1987, p. 1-30.

Kaio Lemos: Homem transativista dos direitos humanos, Consultor do Instituto de Raça, Igualdade e Direitos Humanos da ONU (AMÉRICA LATINA), Mestrando em Antropologia pela UFC UNILAB/CE, Especialista em Estudos de Gênero, Sexualidades e Direitos Humanos pela UFC/CE, Bacharel em Humanidades (UNILAB), Bacharel em Antropologia (UNILAB) e Presidente da ATRANSCE (Associação Transmasculina do Ceará).

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