Denúncias de homofobia nas redes sociais crescem 173% na Pandemia

Dados são de levantamento feito pela Safernet, que constara que crimes de ódio (que incluem violência contra a mulher, homofobia e racismo), pornografia infantil e neonazismo explodiram durante a crise sanitária e de saúde provocada pelo Novo Coronavírus

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Ilustração: Reprodução/The Intercept Brasil

Neonazismo, pornografia infantil e crimes de ódio – que incluem violência contra a mulher, homofobia e racismo – explodiram na internet nos últimos três meses. É o que constata um levantamento feito a pedido do jornal The Intercept Brasil pela Safernet.

Os dados levantados pela ONG, que monitora violações de direitos humanos na internet, mostram que o período entre março e julho de 2019, foram recepcionadas 1.017 denúncias de homofobia nas mídias sociais, enquanto no mesmo intervalo em 2020, em meio a Pandemia de Covid-19, as queixas saltaram para 2.782, ou seja, um número 173% maior que no ano passado.

Os ataques se concentram nas principais redes, como o Twitter, Facebook, Instagram e YouTube. Ao mesmo tempo, as ações das plataformas para remover esse tipo de postagem não cresceram no mesmo ritmo.

Pornografia e Neonazismo lideram

O maior número de violações compiladas é de pornografia infantil: foram 42.931 nos primeiros três meses de pandemia, mais do que o dobro das 20.860 registradas no mesmo período do ano passado.

Os dados mostram que, em geral, 2020 registrou cinco vezes mais denúncias de compartilhamento de pornografia infantil do que 2019 – o maior aumento foi no Instagram, de 238%.

Já o Twitter é a rede social favorita dos neonazistas. Se em 2019 a rede social registrou só 43 denúncias, em 2020 foram 2.369 – um aumento de mais de 5.000%. Também cresceu o número de tuítes removidos pela rede social: em 2019, só quatro foram deletados; neste ano, foram 1.370. Houve aumento no Facebook e Instagram, mas em num patamar muito menor.

Outros crimes de ódio

No geral, crimes de ódio, foram recorrentes. Houve quase três vezes mais denúncias de racismo em 2020 do que em 2019. Nisso, a pior rede social é o Facebook.

Casos de violência online contra a mulher (que incluem assédio e divulgação de imagens íntimas sem consentimento) também dobraram. O Twitter foi a rede social com o maior número de denúncias, mas também foi a que mais se movimentou para remover postagens criminosas, enquanto no Facebook, mais uma vez, o número de posts removidos diminuiu.

Maioria do conteúdo não é removido

A não remoção de conteúdo odioso também tem motivação comercial. Em termos monetários, não é interessante para as plataformas saírem apagando posts e banindo usuários, especialmente a direita histérica responsável por angariar novos usuários, prender atenção das pessoas e faturar em anúncios.

Outro fator é que, apesar de homofobia e racismo serem crime no Brasil, muitas vezes o post não é explícito, e fica sujeito à interpretação dos moderadores, profissionais responsáveis por avaliar as denúncias e decidir se um conteúdo fica no ar.

A pandemia afetou, também, a capacidade de moderação e revisão das redes sociais, o que prejudicou os sistemas de remoção de conteúdo.

A chancela do bolsonarismo

Bolsonaro, ainda deputado, vocifera contra projeto Escola Sem Homofobia. Foto: Agência Câmara

A radicalização e o aumento no número de crimes de ódio na internet também foram percebidos pelo antropólogo David Nemer, que pesquisa grupos bolsonaristas e dá aulas na Universidade de Virginia, nos EUA.

Para ele, esse aumento está diretamente relacionado com a chancela dada por Bolsonaro. Segundo Nemer, compartilhar esse tipo de conteúdo é “uma forma de atacar o politicamente correto”, uma das maneiras como o bolsonarismo delimita os inimigos e também reúne a própria base.

Embora a grande capilaridade dessa base seja no WhatsApp, de forma descentralizada, é nas grandes redes sociais que ela se organiza, por meio dos influenciadores de extrema direita. “As plataformas ocupam um espaço de muito protagonismo nesse sistema, porque ele se retroalimenta”, diz Nemer. “Elas funcionam como ferramentas catalisadoras e materializadoras desse ódio. E ele volta mais potente”.

Plataformas não fazem o suficiente

Todos os especialistas que foram ouvidos pela repórter do Intercept, Tatiana Dias, concordam: o que as empresas estão fazendo é insuficiente.

“No estágio atual de financeirização dos dados, quanto mais eles contribuem menos saudável é o debate público”, diz Lori Regattieri, pesquisadora em computação social e doutoranda na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Os cálculos são feitos para que a circulação desse conteúdo possa gerar valor, mesmo que seja por pouco tempo de circulação”, conclui.

Gráficos

Leia AQUI reportagem do Intercept completa

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