O drama das travestis e trans trabalhadoras do sexo na pandemia

Pobres e pouco escolarizadas, elas assistem a crise provocada pela Covid-19 acabar com o único meio que têm para garantir a subsistência

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Ilustração – MB
Por Samya Nara - Repórter

A notícia do novo coronavírus, responsável pela morte de quase 400 mil pessoas em todo o mundo, chegou para Kelly como algo distante, relativo à China. A partir do momento em que o fenômeno se tornou pandemia e com o decreto da quarentena, ela começou a ficar preocupada e sente – para além da saúde – os efeitos do vírus. “Os homens que costumavam aparecer por aqui desapareceram quando tudo isso explodiu”, relata a travesti que veio de Itapipoca aos 17 anos de idade e que hoje, aos 24, ainda não conseguiu trabalho registrado. “É o preconceito que impede que a gente seja contratada”.

Em tempos de pandemia e com grande parte dos fortalezenses evitando as ruas, sabemos que os setores mais subalternizados e invisibilizados são os mais afetados. Mas, assim como diversos outros profissionais de diferentes áreas, Kelly não pode parar completamente e o isolamento social impacta diretamente em sua única renda.

“Meu programa dura uma hora. Faço beijo grego, chuva dourada, sou ativa e passiva. Sei que o coronavírus existe, mas não posso deixar de vir para a rua agora, se eu não tiver dinheiro, como vou comer e pagar aluguel de R$ 500?”, indaga.

Enquanto os clientes não somem por completo da Av. José Bastos, em Fortaleza (CE), “palco” onde Kelly costuma “dar seu show”, como ela gosta de descrever sua atividade -, a travesti continua fazendo os programas que surgem. “Estou tendo que aceitar R$ 15, R$ 20, se aparecer, e voltar para casa. Em sábados normais, eu conseguia em torno de R$ 200, R$ 250”.

Em sua bolsa, ela garante que leva sempre álcool em gel e duas máscaras que um cliente farmacêutico lhe deu. “Depois do programa, faço a higienização completa, sempre uso camisinha e mesmo que o cliente ofereça muito aqué (dinheiro na gíria trans) não rola sem. Também não beijo mais”, conclui.

Mesmo sem beijar, é importante frisar estas profissionais estão expostas a severos riscos de contrair a doença. Embora não seja uma infecção sexualmente transmissível (IST) e a transmissão aconteça primordialmente por meio do contato com gotículas respiratórias, estudos começam a apontar a possibilidade de contágio por outros fluídos corporais. Mas o risco está muito mais na grande proximidade entre as pessoas durante a relação, afinal, o sexo é um contato físico intenso.

Sem o trabalho nas ruas, como sobreviver?

Segundo dados divulgados pelo Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 90% das travestis e transexuais sustentam-se através do trabalho sexual e, por isso, a quarentena tem afetado o grupo enormemente. Esse é o caso de Kelly.

Expulsa de casa por conta do preconceito, a travesti conta que quis “tentar a sorte” em Fortaleza, mas a única saída que encontrou para se manter viva foi a prostituição. “A grande maioria de nós veio parar nas ruas porque estava à mercê. Sem renda, sem dinheiro, então vender o corpo é o que podíamos fazer”.

Ela revela que a maioria das mulheres trans e travestis profissionais do sexo que conhece estão endividadas nas casas de cafetinas. “Elas têm que pagar as diárias ou são expulsas e têm que morar nas ruas. Algumas chegam a fugir por que não conseguem pagar as diárias. Elas deixam para trás roupas e às vezes até documentos. Tem ainda as meninas que são dependentes químicas. Devido ao vício, elas estão aceitando qualquer programa e ficando ainda mais expostas ao vírus”.

Ações da Prefeitura de Fortaleza

Segundo Dediane Souza, coordenadora executiva da Coordenadoria de Políticas Públicas para Diversidade Sexual de Fortaleza, todas as demandas que chegam ao órgão, no âmbito psicossocial e jurídico, assim como solicitações de eventuais benefícios, estão sendo atendidas em parceria com o Centro de Referência LGBT Janaína Dutra. Dediane acrescenta que o público pode ainda acessar um benefício eventual, que integra a Política de Assistência Social.

O desbotar da política para LGBTIs no Governo Federal

Muitas pessoas da comunidade LGBTI+ estão em situação de marginalização, boa parte sequer têm documentos pessoais como o CPF, não possuem conta corrente ou mesmo celular e acesso à Internet. Por esse motivo, políticas de transferências de renda do Governo Federal não as alcançam e grande parte não terá acesso – por exemplo – ao Auxílio Emergencial que transfere R$ 600 para pessoas em vulnerabilidade socioeconômica.

O Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, da ministra Damares Alves, até o momento não anunciou nenhuma política pública para auxiliar essa parcela da população em tempos de Covid-19. A única iniciativa da pasta foi a publicação, em abril, de uma cartilha para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros se protegerem do coronavírus.

Saiba como ajudar

Por outro lado, por todo o País, são organizações civis pelos direitos da população LGBT que se mobilizam para ajudar e tem distribuído cestas básicas, materiais de higiene pessoal e de limpeza, além de providenciar assistências variadas.

No Ceará, foi criada, por organizações da sociedade civil, a campanha “Vaquinha LGBT”, que tem como objetivo a compra de cestas básicas, itens de higiene pessoal e limpeza.

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Olá, pessoas?! *Que tal ajudar uma pessoa LGBT nesse momento difícil que estamos passando?!* A campanha *“Vaquinha LGBT”* continua recebendo *doações* em dinheiro (de qualquer valor) para a compra de *cestas básicas, itens de higiene pessoal e limpeza*, os quais são destinados a Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) em situação de vulnerabilidade socioeconômica e sanitária. Desde março, quando nossa campanha começou, *já distribuímos 267 cestas básicas*, ajudando *mais de 182 pessoas em 64 bairros na cidade de Fortaleza*, bem como outras cidades da Região Metropolitana; foram mais de três toneladas e meia de alimentos doados para pessoas LGBT que, até então, não sabiam que existia uma rede imensa de solidariedade e amor. Mais do que doar alimentos e itens de higiene pessoal, levamos a mensagem da empatia e do “você não está sozinha (o)”. *Que tal você fazer parte dessa rede de acolhimento e cuidado com a/o outro/a?!* *_As doações poderão ser feitas por meio dos seguintes dados bancários:_* Banco do Brasil Ag. 3468-1 C/C 125.554-1 CENAPOP – Centro Popular de Cultura e Ecocidadania CNPJ 35.025.691/0001-62 _Para mais e outras informações, entrar em contato com Labelle (85 – 99751 0013 // 98704 2310 )_

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A Vaquinha é conduzida pelo CENAPOP – Cultura e Eco-cidadania. As doações podem ser enviadas para:

Banco: Banco do Brasil
Agência: 3468-1 

Conta corrente: 125554-1
CNPJ: 35.025.691/0001-62

Para doações financeiras em outros bancos ou em produtos: as Mães pela Diversidade estão com endereço fixo para recebimento e contas na Caixa, Bradesco e Banco do Brasil.
Telefones para contato: Mães pela Diversidade: (85) 9 9999.0417 (Mara Beatriz) ou Organização da Vakinha: (85) 99700.3737 (Labelle).

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