Quando um coração de uma mãe pela diversidade para, todes param juntes

Coletivo lamenta os assassinatos de 129 pessoas trans no Brasil só nos primeiros oito meses do ano, que representa um aumento de 70% em relação a igual período do ano passado, segundo o quarto boletim bimestral da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)

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Imagem: Merlinka – Rainbow Pieta
Por Mães pela Diversidade, colunistas Mídia Bixa

No mês em que toda a sociedade brasileira é convidada a pensar sobre a importância do cuidado em saúde mental, a prevenção ao suicídio, sobretudo nesse contexto de pandemia – que intensificou o adoecimento des nosses filhes – e mediante as diversas vidas LGBTQIA+ perdidas, tanto em decorrência da COVID-19 como em razão da violência, nós, Mães pela Diversidade, trazemos outra problematização sobre adoecimento psíquico: como ter saúde mental sendo uma mãe pela diversidade?

Como ter paz sabendo que a vida de nosses filhes sofre riscos? Como deitar a cabeça no travesseiro e imaginar que a lgbtfobia se alastra nas madrugadas frias das grandes capitais, onde muitas de nossas filhas lutam por seus sonhos? Como ter de aquietar o coração por não podermos estar em todos os lugares protegendo-es, garantindo que estejam bem, que a violência não irá alcançá-les e roubá-les de nós? Como ficar bem ao imaginar que não teremos controle sobre os afetos, os desejos e os amores que naturalmente chegarão, convidando-es a viverem a vida. Como ter paz sabendo que algumas mães pela diversidade aguardam sues filhes voltarem para casa, mesmo sabendo que isso nunca mais irá ocorrer. Vamos destacar aqui 129 histórias cruelmente e precocemente interrompidas pela transfobia e pela misoginia.

Para muitas pessoas, apenas números, para nós, 129 filhes cheias de vida, alegria, amor e brilho para encantar o mundo. Vidas que importavam, e ainda importam muito para centenas de pessoas que as amam. A cada vida perdida, milhares de corações se contraem, param de bater em diversos lugares desse país. Mães que ficam órfãs. Lágrimas de dor, angústia e ira que deslizam silenciosamente. E o medo por nossas filhas vivas, que buscamos afastar com as distrações do dia a dia, mais cedo ou mais tarde nos furta.

Vivemos com os corações nas mãos. E a cada minuto que passa e não as vemos entrando pela porta, só pedimos a Deus que cheguem em paz, bem e possamos olhar em seus rostos mais uma vez. Que possamos ouvir suas vozes. Se pudéssemos as manteríamos aquecidas no afago de nossos corações, para que nenhum mal delas se aproximasse.

Enquanto isso, infelizmente tomamos conhecimento de mais uma perda. Por detrás de cada noticiário, cada matéria, uma mãe, um pai, uma família que perdeu um afeto, uma amiga, uma companheira, um sorriso, um abraço. Uma gargalhada gostosa. Meninas/mulheres que eram a alegria de suas casas, a expectativa da família. O orgulho. Lares em que o amor ensinou ao preconceito amar e o que importava era ser feliz. Meninas/mulheres que não são filhas da vida, nem das ruas como muitos pensam, mas de milhares de mães e pais que as criaram para viver, sonhar, serem felizes. Serem quem elas quisessem ser.

Sobretudo, donas de si. De suas asas. O que sem sombra de dúvidas mais incomodou aqueles que tem medo de voar. Pais que amam seus filhes exatamente como eles são. Que respeitam suas essências em vida e, nas despedidas, como a mãe passou batom nos lábios da filha, para que ela partisse como sempre gostou de ser vista: uma linda mulher. Que as chamem pelos seus nomes.

E ainda que a dor por vezes nos enfraqueça, continuamos semeando o amor nesse solo ainda tão infértil pelo ódio. Não podemos deixar de acreditar que um dia conseguiremos ter tranquilidade. Que um dia, o respeito supere a intolerância e sejamos um país, um estado, onde nosses filhes não temam perder a vida na próxima esquina, pois enquanto um coração continuar parando, todos os nossos pararão juntos.

Mães pela Diversidade do Ceará: Agrupamento local do coletivo que tem como pilares a independência, laicidade e o suprapartidarismo. Nasceu em São Paulo, em 2014, fruto de um encontro espontâneo de mães e pais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais de todo o Brasil, preocupados com o avanço do fundamentalismo religioso, a insegurança jurídica, o preconceito e a violência contra a população LGBTQI+.

1 COMENTÁRIO

  1. Que texto!!! Quanto sentimento recai ao visitar cada palavra, cada momento, cada dor.
    Um texto real, recoberto por tensão, por favor de uma sociedade injusta e cruel!!!

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